Vendaval de Julho

Às vezes por pouco não enlouquecia, a chuva misturava-se aos papéis insossos, a pressa tropeçava na falta de alguém. Alguém para quê? Alguém para ter. Alguém para divagar sobre tudo e sobre o Nada. Alguém para dizer o que achou daquele pássaro que voou baixo naquela mesma manhã. Alguém para convencê-lo do contrário. Alguém para ter algum sentimento, qualquer coisa que se sinta. Alguém para chamar pelo nome, alguém para chamar de eu-no-outro, ser chamado de outro-em-mim. A mistura indelicada, confusa e abrupta que é do amor.

Alguém para fazer com que os papéis sozinhos sobre a mesa não importem mais. Para bagunçar a falsa ordem do seu dia-a-dia. Para a mudança inesperada de planos. Para substituir as dúvidas pela certeza estranha de um pôr-do-sol. Para fazer sentir, para não acreditar na razão senão aquela que vem quente de dentro.

Porque o amor não existe. O amor se sente, se constrói, se imagina. É o que fazemos dele, é o que fazemos de nós. É o resultado das escolhas pequenas. Nasce e morre dentro; nunca entra nem sai – estava ali o tempo todo, quieto, à espera, à deriva.

E, talvez, quando não enlouquecesse, quando deixasse os papéis de lado, olharia de forma diferente para a vida e notaria algo mais. Nas esquinas, na pedra da praia, no café delicado, no andar descompromissado. E acharia, sim, um pouco do mistério que buscava. Diria sobre o pássaro, sobre seus problemas. E ouviria bastante coisa também.

E tudo pareceria natural. Como os papéis, agora jogados no chão e voando pela sala, porque a mesa daria lugar a dois corpos com pressa, sem saber onde querem chegar.