bitter-sweet simphony
Dose Um:
As luzes eram tão brancas que o faziam fechar os olhos. O tempo era incalculável, o relógio desaprendera a contar. O velho homem murmurava palavras desconexas, tentando entender o que havia acontecido.
E tudo aconteceu tão rápido… Houve o sufoco, a falta de ar e, a seguir, o chão. Com as mãos trêmulas, pegou o telefone e tentou ligar para a emergência. Tremia tanto que errou o número duas vezes… Se ao menos tivesse acertado de uma vez – pensava.
O que restava agora era esperar. Não conseguia ordenar seus pensamentos. Pensava nos olhos dela, tão verdes e tão frágeis. Há tanta coisa para se pensar quando se está há sessenta anos com uma pessoa… E tudo pode ir embora tão rapidamente.
Quando o médico apareceu no fim do corredor iluminado (branco como um anjo caído), o pequeno homem contorcia sua face enrugada para pensar no sorriso. Aquele sorriso que vinha sempre, independente. Pensou na viagem à Veneza, tão planejada e desejada. Podia imaginá-la em contraste com o céu azul, seu sorriso misturado ao vento frio. E pensou nas inúmeras vezes que cancelara a viagem por motivos tão bobos.
Tudo parecia bobo agora, já que o médico estava próximo e sua boca começou a abrir.
Ele disse:
_Me desculpe, fizemos tudo que podíamos.
Veneza. Sorriso. E ele respondeu:
_ Mas e eu? Fiz tudo que pude?
E havia algo tão sincero naquela pergunta, tão amargo e direto, que o médico se retirou imediatamente e se pôs a chorar. O velho, por sua vez, estava imóvel. Fechou os olhos. E podia jurar estar em Veneza.
Dose Dois:
O médico estava no canto do dormitório, suas lágrimas ainda molhadas em sua bochecha. Só conseguia pensar no vazio do coração daquele homem, um vazio não cirúrgico. Lembrou de algumas palavras que o velho murmurava quase inconsciente: algo sobre Veneza e sobre sorriso, sobre não fazer da vida uma sala de espera…
E então se lembrou do sorriso que não pertencia ao velho, mas sim a ele. O sorriso que compartilhava há dois anos (e parecia tanto tempo), com uma tal mulher morena e baixa. Quando se sentiu fraco demais, tempo atrás enquanto chorava, foi dela também que se lembrou.
Olhou para a caixinha preta que estava no seu armário – estava esperando há muito tempo pela hora certa. Pensou nos olhos verdes daquela frágil mulher (pensou em como doía ter sido o último a olhá-los), e teve a certeza absoluta.
Precisava da felicidade agora. Foi tomado por uma onda inexplicável de coragem e astúcia e determinação e bem-querer. Saiu da sala com a caixinha na mão, atravessou o corredor e bateu na porta. Uma mulher baixa e morena a abriu.
Ele a entregou a pequena caixa e o beijo mais conecto até então.
Ela abriu e sorriu. Também estava esperando há tanto tempo…
Ela disse:
_ Sim, é claro – o pequeno anel agora brilhando.
Ele disse:
_Veneza?
Ela achou estranho, mas concordou com um sorriso absurdo.
Sim, Veneza.
Alí, em algum lugar entre o casal e o idoso, felicidade e dor se encontraram e se estranharam. Estavam juntas, no mesmo lugar. Um sentimento agridoce, incontrolável, arrebatador e maravilhoso. E eu? Eu gosto de chamá-lo de amor.