esta seria a nossa realidade;

Eu abri o guarda-roupa mais uma vez. Neste momento, entretanto, de fato me pareceu inútil. Não estava mais com o rosto contorcido de desespero e esperança, não acreditava mais que seu cheiro pudesse suprir aquele buraco frio dentro de mim. Nada disso. Agora só o abri por… não sei. Só o abri. E lá estavam suas roupas, empilhadas na sua organização estúpida. E logo veio também o seu cheiro, me fazendo dar passos para trás. Não. De que vale tudo isso? Tive vontade de colocar tudo em uma grande mala, de forma bastante sistemática como você faria, e colocá-la no lago lá fora. Veria suas lembranças sumindo pelas águas no horizonte, pensando que talvez fossem encontrar você.

Fechei a porta de madeira. Queria me virar e te ver na cama, lendo um livro que me pareceria sério demais – mas não, só vi uma cama não-arrumada, surrada um pouco por lágrimas. E foi nela que me deitei. Seu cheiro, o calor, o toque da pele. Do infinito de coisas que você representa só faltava seu corpo. As palavras, o toque, o sorriso, ainda tentava conservar no meu pensamento. E conseguia, por enquanto. Foi quando me lembrei do jeito que você mexia em meus cabelos. Foi neste momento que a lágrima mais densa escorreu pelo meu rosto. Quente. Salgada. Triste. Derrota.

Fechei os olhos de pavor. E senti o seu toque, mais vivo que tudo. Mas… como? Abri meus olhos e era você. Tão perfeito e tão vivo, tão… você. Não poderia ser verdade. Mas era. E não ousei duvidar, preferindo responder com um sorriso de boas-vindas. Esta seria a nossa realidade.