a mulher da janela e o homem do olhar mundano;

Por vezes, quando a luz era fraca e cambaleante, perdia-se no parapeito da janela. Havia algo assustador e atraente em poder ver e ser vista. Quem poderia dizer quem era aquele homem que passava apressado, sua maleta fraca nas mãos? Quem poderia dizer quem era a mulher triste que andava sem olhar? E quem poderia dizer quem era aquela sonhadora perdida que pairava por detrás da janela?

Olhava para fora para não olhar para dentro. E sabia disso. Era natural a vontade de conhecer, de chegar, de tocar, de ter. As vontades repentinas agora eram mais que aliadas. Tornou-se impulsiva, imprevisível.  De nada esquivava, somente de si mesma. Trancava-se em janelas e portas; falsas mensagens e flores murchas.

Quem seria ela? Vivia a ilusão de que um dia alguém a diria. Assim poupava o trabalho. Então venham, desconhecidos bem-vindos, venham todos. E iam. E não diziam. Quando diziam, não convenciam.

Quase desistia… Nos lanches de tarde (ah, aquelas mesas redondas tão pequenas…), ficava sem esperança. Gostaria de estar somente com ela mesma comendo aquele pão. E nem isso estava. Não havia ninguém ali. Ainda…

Ainda porque, numa tarde dessas preguiçosas, esbarrou-se com um homem mediano de olhos fundos que a cativou. Havia algo tão… mundano naqueles olhos. Não achou a busca desesperada por definir-se, tampouco a falsidade daqueles que julgam já se conhecerem.  Achou a simplicidade do caminhar. A prazerosa ansiedade da espera.

As mãos uniram-se num sorriso, as bocas juntaram-se num choque, os corpos despiram-se num imediato. E foi exatamente naquele momento que decidiu parar de fugir, parar de esperar que alguém a dissesse quem realmente era.

Levantou-se, olhou-se no espelho e viu uma mulher. Viu uma oportunidade de sonhos, planos, tropeços. A não limitação do só viver. Ela respirou fundo, sem notar que havia encontrado a si mesma. Só notou, após um sorriso, que aquele homem agora se direcionava até a janela.

Ele parou, sorriu, e fechou as cortinas.