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Quando a olhei tive certeza. Ela estava sentada debaixo da macieira, encostada na árvore e curva em seus pensamentos. Podia jurar que seus olhos estavam fechados, perdidos em alguma fantasia tão possível, tão real. Se sonhasse com um amor possível, por que não abria os olhos? E me veria…

Em sua mão direita morava um livro com uma capa antiga, quase amarela. Na esquerda, anéis e pulseiras que brincavam entre dedo e outro. Pisquei. Meu olhar estava fixo, meu coração estava certo. Mas não podia me aproximar. O que seria de mim? Quem seria? O que diria? Eram tantas dúvidas e poucas respostas… Certo mesmo era só o desejo. De chegar, de tocar, de conhecer. De ler o livro.

A garota movimentou seus cabelos quase ruivos (aquele tom engraçado e místico entre o loiro e o ruivo) para que se virasse e me encarasse. Os olhos eram negros, simples. O olhar, por sua vez, complexo. Algo me obrigava a seguir em direção a ela. Algo me prendia ao chão.

Uma coragem completamente sem sentido cresceu subitamente e me fez dar um passo, formar um sorriso. E eu, tão desajeito em minhas proporções, consegui até ser simpático. A simpatia do primeiro contato. O choque seco entre dois corpos. Não, éramos mais que corpos. Éramos nós e tudo foi leve como o vento do outono. O vento que chega rápido, sem autorização, mas que agrada.

Sentei-me ao lado dela, fitando meus próprios pés grandes e desajeitados. Trocamos um olhar em três microssegundos eternos. O cheiro de seu perfume era tão suave, misturava-se ao aroma calmo da grama e ao calor ameno do dia. Abri minha mochila e retirei meu pequeno livro. O pássaro sem rumo.

Gastamos quarenta minutos de nossas vidas ali, na árvore. Não trocamos nenhuma outra palavra; além daquelas em nossos olhares e risadas ocas. Nossa respiração dizia tanto, tanto, e ela sabia o que eu sabia. Não havia nome, não havia formulação lógica. Mas sabíamos…daquilo. Aquele sentimentozinho engraçado.

Seguimos caminhos diferentes, nos encontramos nos dias seguintes.  Andávamos por todo o lado (por todo o sempre?) compartilhando aquela mesma tarde especial, aquela experiência encantadora. O poder da mudança que fascina.
E tantos anos se passaram sem que a visse. Encontrei outros momentos, com outros tipos. Li outros livros, li outras pessoas – e tenho certeza de que ela também. E não há nada de errado nisso. Ainda me pego pensando nela, perdido em pensamentos do passado. Às vezes tenho certeza de que sou correspondido, em algum lugar.

Foi quando resolvi ir até a árvore, ainda viva e quase a mesma (tão forte, impassível  ao tempo). A garota - poderia agora já ser uma mulher, mas seria sempre a garota - não estava lá. Aproximei-me da sombra solitária e sentei-me. Encostei em algo, não era uma maçã. Era um livro, com capa antiga, quase amarela. O título dizia: A encantadora de pássaros.

Fechei os olhos, senti o cheiro de perfume e grama, perdidos no passado.
Uma lágrima se formou, contida num singelo sorriso.