ao avesso.

Cansado de ter que escapar da urgência dos que clamam por pressa e mais pressa, apressados demais para notarem a própria calma, deixei-me perder no canto mal-iluminado do meu quarto.

A esquina de duas paredes verdes e frias (ainda invento uma parede quentinha, dessas que não precisam acompanhar um travesseiro nas costas para serem confortáveis). No inicio, não havia pressa ali. As poeiras passeavam despreocupadas, dançando com o vento, sem rumo e sem se importar com isso. Fiquei um tanto quanto admirado. Poeiras são tão inteligentes. Se pensassem muito no caminho, aposto que não andariam tanto. Mas poeiras são poeiras.

Decidi esquecer essa poeira de pensamento e fui surpreendido por uma barata (dessas grandes e antenudas, capazes de pressentir até o futuro talvez, com antenas tão avantajadas). Ela bateu forte na esquina, desorientada. Esquinas, de fato, são coisas pouco decididas. A barata ficou em dúvida sobre para onde ir. Agora ela pode, sim, ficar em dúvida. A baratinha lispectoriana. Tão complexa (deve ser o tamanho da antena).

Voltando à pressa, a barata também estava dominada por esse frenesi. Aposto que não tinha onde ir, mas ia. Ir era o intuito, talvez. Não se sabe onde. Assim é bem mais fácil chegar. Decidiu, provavelmente pressentindo-me através de sua antena baratabólica, vir à minha direção. Parou e me encarou. Olá, barata.

Não me respondeu. Não sentiu vontade, não se interessou. Aliás, para ela, sou só um humano. E que humano estúpido. Estúpido por estar olhando uma barata andar. Nada mais primitivo que pensar e pensar e ficar parado.

Ela deu a volta e continuou sua pequena e grande odisséia. A poeira continuou a se deixar levar, inconseqüente. E eu? O humanóide? Resolvi dar uma volta também…