mirror and garden;
Ela ainda não havia decidido sobre ir ou não até o jardim. Podia observá-lo pela janela molhada; tão morto e tão esquecido. A chuva parecia cair eterna, como o sentimento de indecisão que parecia reinar e fixar aquela mulher ao passado. E à inércia.
Perambulava pela casa, sem esperança e sem nada. O nada que veio depois de tudo. De fato, a perfeição sumira tão repentinamente que o queixo caído ainda se formava, a surpresa ainda não havia ido embora. Quem sabe não era exatamente isso que fazia tudo tão difícil? Mas a dor vinha antes que a aceitação.
E lá estava ela; ou, ao menos, lá estava aquilo que restava dela. Não sentia pena de si, mas não aceitava a mudança. Olhava atrás das cortinas procurando suas risadas, seu brilho forte, seus sonhos. É, um dia teve um pesadelo em que achava sua felicidade dentro de um baú que não conseguia abrir. Acordou entendendo ser o baú. Tão fechada em si mesma como uma rosa que não ousa encantar.
As janelas molhadas eram tão espessas e escorregadias que deixavam o medo gritar. E gritava alto, mas sufocado. Como ela não podia entender que podia vencer aquilo tudo, que podia quebrar o vidro? O jardim estava tão perto…
Sua felicidade era como aquele jardim: visível, mas inalcançável. Onde estava aquele martelo, onde? Suas mãos eram incapazes de quebrar o vidro. O sangue brotava quase negro, misturando-se à frustração. Não conseguiria. Nunca. Viveria olhando sua vida por trás de um vidro? Então era isso?
E, subitamente, acompanhado pelo canto de um vento sem origens, ela sentiu uma carícia em seu ombro. Fechou os olhos para intensificar aquela sensação tão esquecida, aquele frenesi. Era um calor em forma de palavra: a estranha sensação de viver.
Resolveu abrir os olhos e virar-se. Um arrepio percorreu seu corpo ao perceber que o tão apreciado carinho nada mais fora do que seus cabelos encostando em seu ombro. Nada de companhia, só um pouco mais de solidão. Mas, ainda assim, luz.
E não foi a tristeza que acabou acendendo as velas. Não, a responsável era a esperança.
Ela finalmente notou que podia ser mais, merecia ser mais. Era capaz de alcançar o que quer que fosse, de desejar, de sonhar, de amar e de arrepender-se. Só um vidro a separava daquilo que podia e queria ser.
Fechou os olhos e deu um passo a frente, em direção à janela. E em nada tocou. Não houve o choque, o contato gelado. O que houve foi o abrir os olhos para uma nova estrada, o cheiro agradável do jardim. E a sensação, ah!, a sensação imperadora de ser.