a fúria do vento;

Prólogo

_ Vamos, você consegue! – suas palavras quase sumindo pelo barulho das ondas.

_ Você pula logo atrás de mim?

Eu estava nervosa. O vento molhado batia forte contra o meu rosto e fazia meus cabelos voarem num pequeno furacão enquanto, eu, tentando inutilmente disfarçar meu total despreparo, forçava um sorriso. Olhei novamente para baixo. Vertigem. O mar vivia em fúria, castigando o rochedo – no topo do qual eu estava – com suas razões ocultas. Compreenderia um dia aquela raiva? Não importava. O que importava era que estava ali, com ele, sob um rochedo rodeado de vegetações coloridas, tentando não demonstrar que não era o tipo de pessoa que pulava de rochedos. Entretanto, cedo na manhã daquele dia, ele havia me dito que eu era muito racional, que precisava fazer mais coisas sem aparente motivo. Era estranho como alguém que me conhecia há tão pouco parecia entender tanto de mim.

_ Vamos, vai ser divertido! Antes de você notar já vai estar lá embaixo… – segurou em minhas mãos com força, quase como se quisesse me dar toda a coragem que não possuía.

_ Tudo bem… Mas prometa que vai me encontrar lá embaixo…

_ É claro. Sempre.

E foi neste momento que o ventou parou de soprar, nossas mãos se desuniram e não conseguia mais ouvir o barulho das ondas, o barulho de nada. Senti-me voando, mas ainda estava lá, estática, naquele rochedo. Fui atingida por uma situação de impotência e insignificância que nunca havia antes sentido. Meu peito se estremeceu e senti meu coração parar de bater. Isso tudo durou poucos segundos, ou nem isso, mas senti aquela espécie de sentimento sem razões se prolongando quase em uma pequena eternidade.

Ondas. Barulho. Senti novamente o vento maltratando, meus pés descalços tocando a rocha espetada. Meus olhos reacenderam, como se colocasse os óculos após uma semana de visões embaçadas, e pude enxergar o rosto dele por uma última vez. Seus olhos estavam vivos, sua boca vermelha trancada em um silêncio lindo, sua pouca barba desfilando na pele morena. O cabelo balançou e, mesmo me lembrando de que não se tratava de uma fotografia eterna a disposição de minha desejada observação, me fez admirar e notar o que mais me atraía nele: sua beleza dinâmica. Seus cabelos lisos, finos e negros, não tinham qualquer ordem. E tudo nele era vida que, com sorte, viria até mim. Mas não. Era o momento de pular. E, sem pensar, pela primeira vez em muito tempo, me virei para correr em direção à ventania.

Já podia sentir meus pés voando quando ele me puxou pelo braço direito. Olhei rapidamente pra baixo e notei que estava bem perto da beira. Por que havia me parado? Não queria que pulasse? Mas, como resposta, só obtive um movimento com a boca e um olhar pesado, quase lagrimado. Seus lábios se contorceram para o lado esquerdo e todo o seu rosto contorcia-se pela retenção de algum sentimento. Então notei que, talvez, ele tenha tido a mesma sensação estranha que tive, o mesmo descontrole. Sem mais, sem razões, sem explicações e sem mais palavras, pulei, sendo devorada pela imensidão daquele vento.

Enquanto caía, pensava em suas últimas palavras e no jeito estranho que o cabelo dele se movia. Quando senti o baque da água, soube que, na verdade, deveria ter pensado que aquela seria a última vez que o veria e, aquele instante, meu último momento de pura paz.

Hoje, quando penso, percebo que o Destino me gritou que nada seria igual e eu, confusa na minha admiração, decidi não ouvir. Hoje, são só memórias.