sobre a espontaneidade;

Questão estranha esta de “deixar-se ser”. Ainda me lembro dos dias em que, sentando na cama, fiquei inutilmente refletindo sobre quem era e quem deixava de ser. A simplificação com adjetivos é quase inevitável. E, de fato, assim como Edgar Allan Poe, prometo glória instantânea a quem escrever uma pequena obra denominada Meu Coração Desvelado”. Como por em palavras uma invenção barata - que é o “eu” estável -, e como ser espontâneo sem saber quem se é?

A resposta é simples e meio assustadora. Entretanto, só a percebo agora, longe da cama auto-reflexiva e perto da tinta que não cheira. Só se é espontâneo quando não se busca o eu. Isso porque ser espontâneo é não se limitar, é fluir, é não interferir. Seria este então o castigo de todos os escritores? Perdidos em sua auto-busca, doidos formulando parágrafos da vida real? Estaríamos nós (e me permito inserir nesta estranha categoria) fadados ao círculo eterno da busca do “coração desvelado”?

Desesperado, busco uma solução. Apesar de ser uma tarefa sensível, podemos conciliar a busca do eu com a espontaneidade. O segredo está no modo de buscar. Mudemos as frases de “Eu sou…” para “Eu estou…”. Precisamos ter a consciência – e o prazer de notar – que somos seres tão mutáveis! A escrita tem que adquirir seu caráter dinâmico.

Então, escrevo meus sentimentos, minhas ilusões, meus medos do hoje. Mas sorrio com a certeza de que eles não serão os mesmos de amanhã. Escrevo para descobrir. Escrever é parte da minha espontaneidade.

De fato nunca escreverei o tal “coração desvelado”, mas consigo brincar com ele de vez em quando, tocar em sua superfície multifacetada, assistir às suas mutações fantásticas, me divertir com as passagens e com o tempo.

E, afinal, notei uma verdade agradável: não quero escrever o coração desvelado, quero vivê-lo. Todos os dias.