O rio, o frio e os dois;

O dia começava a dar as mãos a Noite - o crepúsculo rosado dos dias de inverno. No píer em que me encontrava, as pessoas começavam a se retirar em direção às casas, algumas se abraçavam pela necessidade de calor. O rio passava lento, aparentemente gelado, de um azul índigo que tornava possível a idéia do rio congelar a qualquer momento. Não havia céu, somente nuvens cinzentas imóveis.

Do meu lado, ela permanecia cálida, trocando olhares para lá e para cá, parando por mais tempo no movimento contínuo do rio. Seus cabelos ondulados balançavam graciosos com o vento feroz, como se fosse possível diante de tanta selvageria encontrar uma paisagem delicada. Seus olhos castanhos eram escondidos por um óculos preto e, seu pescoço, por um cachecol azul.

Agora quem tomava mais tempo em um olhar era eu, atencioso em cada movimento do rosto dela. O jeito engraçado com o qual ela retirou o seu óculos e o guardou no bolso. Os lábios vermelhos tremiam com frequência e, com os olhos semicerrados, davam um aspecto engraçado.

Havia algo maravilhoso naquele silêncio. Só o vento dizia coisas incompreensíveis em nossos ouvidos, quase não incomodando. O rio, as pessoas, a cidade no fundo, nós – tudo se resumia àqueles momentos raros de silêncio.

Levantei minhas mãos para tocar seu rosto quando ela, destraída, o virou e me deixou alí, com as mãos soltas, acariciando o frio invisível. Dei um sorriso torto que chamou a atenção da mulher – como se algum barulho, pequeno que fosse, tivesse despertado aquela inércia – que me perguntou intrigada: “Do que você está rindo?”. Para a qual eu respondi: “Eu estava prestes a tocar seu rosto quando você se virou. Daí fiquei assim… você sabe…”

Quem esboçou um sorriso agora foi ela e pude notar que, em algum lugar entre suas bochechas e seus olhos, um tom vermelho apareceu. “Me desculpe, não foi a intenção”. “Sei que não, por isso sorri”.

Uma criança passou entre nossas pernas, rápida, correndo em direção à sua mãe que saía do piér com as mãos em fricção. Foi o que precisávamos para notarmos que era realmente a hora de ir. Trocamos um olhar esclarecedor e nos viramos, deixando o rio – e toda a paisagem que o pertencia – para trás. A minha intenção de buscar aproximidade com ela também ficou perdida por trás de nossos passos. Seria um passo importante… Seria.

Agora nossos braços se movimentavam num auto-abraço acalentador. Talvez se o destino estivesse também no píer ele me permetiria tocar seu rosto e agora estaríamos abraçados, eu e ela, no calor verdadeiro. O auto-abraço é, antes de todo, solitário.

“Está bem frio hoje, não é?” – ela me perguntou com os olhos fixos em mim, ainda andando. “Infelizmente”, não me contive. Foram treze passos até o momento.

Ela me surpreendeu quando me fez parar a caminhada, segurando meus braços. Eu só a olhei. Ela, que em um gesto tão ligeiro retirou sua luva, levantou sua mão até a altura do meu rosto. E me acariciou.

Assim, com um abraço sincero, nos mantínhamos firmes no frio, dois sorrisos sincronizados acompanhando.