Batalha do eu - parte 2
Entrei no ônibus sem muita esperança. O barulho parecia incomodar quase todos, mas não a mim. Eu estava praticamente surda, ocupada ouvindo minhas próprias loucuras, meus próprios pensamentos e também o meu próprio nada. O que somos senão todo nosso nada e todo nosso tudo?
O sol estava tímido e eu gostaria de não me importar com ele. Queria fechar meus olhos e nem pensar em dia. Dia de quê? Que dia? É quando o tempo não faz mais sentido… Meus cabelos, minha boca, meus pés frágis quase descalços – nada importava.
Viagem para lugar nenhum, antes que pergunte o meu destino. Queria quebrar esta idéia boba de que só se vai quando se sabe para onde. E os caminhos sem placa? E as caminhadas sem trilha? Seguir alguns passos não funcionou, não é? No fim descubrimos que a vida não torna o amor fácil. No fim descubrimos que o amor não é o bastante. Mas nada é.
Não sei quanto tempo passou até que parasse de fitar minha pulseira preta nos punhos tremidos e olhasse para o menino que fazia sinal para que o ônibus parasse. Ele era extremamente pálido, os cabelos encaracolados de forma castanha, as roupas engraçadas e combinando. E ele não pertencia. Era mais um daquelas “pessoas-objeto” que não se encaixam na cena em que se apresentam. E ele, para onde estava indo?
Eu parecia saber. Aqueles olhos triste, sem rumo, molhados, pareciam procurar uma metáfora para suas quase-lágrimas. E onde melhor do que no mar? Então, precisava ter certeza. E precisava de certa forma decrifrá-lo.
Havia achado meu destino, me lenvantando e indo atrás dele. Ele pareceu não notar minha presença enquanto caminhava alguns metros atrás. Não encontro palavra mais adequada do que “gracioso” para o modo como ele andava, gesticulava, mexia as mãos no cabelo.
Lá estava o mar. Que não parecia tão forte, não parecia tão impetuoso, não parecia tão imortal. Acho que o mar tomava a forma do garoto. Era lindo, mas era triste. E o menino se sentou na areia sem se preocupar. Os pés descalços, o pensamento onde?
Me aproximei. Sentei um metro e meio ao lado dele. Ele olhou só para o meu pé. Pensei no que iria falar, mas ele foi mais rápido:
_ Quando estou com vontade de chorar e não me sinto confortável, venho para o mar. Sempre penso que meus olhos se transformam em mar e minhas lágrimas em ondas que não cansam em vir.
Os olhos de mel do menino derretendo. Eu disse:
_ Mas porque choras tanto?
_ Porque senão enlouqueço. O que você faz para não enlouquecer?
_ Eu entro em um ônibus sem destino.
_ Acho que choro por nós dois então.
Ele quase esboçou um sorriso. Mas não é sorriso quando não se está feliz. É um contorcer estranho dos lábios. Resolvi perguntá-lo seu nome.
_ Tenho vários nomes. Meu nome é a saudade do olhar esperançoso para o lado vazio. Meu nome é balanço que balança sem pessoas. Meu nome é incompreensão de mim mesmo. Meu nome é um passo cansado na areia.
Por um instante, parecia ter sido atingida por uma enorme onda de angústia, de tristeza e de solidão. Como se cada pedacinho de tristeza se tornasse o salgado daquela água.
Dei a volta e beijei a testa do garoto. Ele me observou e me assistiu sair dalí, sem sons de saída. Aquele mesmo zumbido de silêncio, o mar quieto.
O sol se põe instantaneamente quando não se tem com quem o olhar.