Entre cidades que não conheço e antigos receios
A beleza escondida da mulher de negro, sentada elegante naquela escada antiga, prendeu meus olhos nesta tela morta. Havia vida e havia força, desafiando minhas preconcepções. E prefiro ver, no desafio de estar errado, um aprendizado, e não uma derrota ou vergonha. Aprendo a sorrir quando sou surpreendido, a admirar quando minhas ideias cambaleiam.
Mas, no final, ela ainda está presa nessa minha tela gelada. A vontade de vivenciar quase entra em choque com o meu medo, grande e velho companheiro, de conhecer o novo. Não importa se justificado, sempre acho que esse tal ‘novo’ vai me dar uma pancada na cara. E ficaria difícil dizer quem dói mais: o golpe ou a minha escolha. Mas escolher é inventar. E inventar nos torna felizes (e vivos!).
E o tempo passa junto às minhas indagações e descobertas, nesse fluido lindo que é a vida. As ocasiões me dizem ‘oi’, as vitórias erguem seus copos, e a possibilidade (que é mãe de toda ação) é bem-vinda em meu trono.
Gosto de acreditar que eventualmente voltarei a esbarrar com esta mesma mulher envolta de negro. E, agora livre do erro de generalização, a reconheceria. O vermelho de suas curvas. O raro de seu olhar. Sentaria entre ela e meus receios naquela mesma escada. E sorriria.
Encheria meus olhos de vida, de paixão e reconhecimento. O sentimento da felicidade plena tomaria conta de cada pontinha do meu ser. Que se transformaria. E, afinal, prefiro ser um eterno otimista: acreditar na beleza e na felicidade, ver no tempo uma dádiva, fazer das lágrimas o aprendizado e a força. Viver, inventar, ser.