Prólogo;

            Ainda me lembro da vela que se apagou quando ele entrou pela primeira vez no cômodo mal iluminado. O lápis que, assumindo vida, dançava em minha mão, subitamente parou sob o papel. Com a vista baixa, primeiramente vi seus sapatos de couro, empoeirados e cansados, como quem precisa andar sem não mais conseguir. Todo seu semblante era como aquele sapato: cansado, marcado pelo tempo, numa inútil e incansável tentativa de se agarrar a uma época enevoada.

            Antes que pudesse dar continuidade a minha habitual análise (eu, tão ingênuo, acreditava poder ler pessoas como se fossem livros!), o homem retirou um pacote do bolso de seu paletó marrom. Não me espantei ao ver que o pacote estava amassado. Com cuidado, as mãos longas e enrugadas retiraram um objeto reluzente do pacote. O brilho do ouro, combinado ao amarelo das velas, deu ao visitante um espectro mágico, indecifrável. Em seu rosto, uma mistura de tristeza e alívio.

            Não me recordo das minhas exatas palavras, já que a lembrança paira em minha mente como um filme mudo. Talvez a força e o impacto das imagens, dos movimentos e das cores tenham obliterado qualquer outro tipo de recordação. Provavelmente cheirava a livros, cera e perfume, mas isso vem da intuição, e não da memória. O que vem da memória foi a maneira extremamente delicada com a qual depositou sobre minha mesinha de madeira aquele objeto reluzente. Minha camisa, agora manchada pelo amarelo-ouro, escondia o nervosismo marcante em minhas mãos trêmulas.

            _ Não quero mais recordar. Disseram-me que este é o local ideal – disse o homem, movimentando sua barba rala e prateada.

            Decifrei novamente o alívio. E, da sua dificuldade em dizer cada uma das palavras, a tristeza que acompanha à velhice. Tratava-se de um cordão dourado, no qual um anel de mesma cor – mas maior intensidade - se agarrava.

            Mas quem haveria dito o quê? Quem seria aquele homem? Foram as perguntas que pisotearam minha mente e não encontraram refúgio em meus lábios. Eu estava quieto como meus livros.

            A porta se fecha e outra vela se apaga, me deixando na mais completa escuridão. Agora a sós com aquele objeto enigmático, pude ver que ele ainda brilhava, como se tivesse absorvido a trêmula luz de minhas velas. Coloquei-o em minhas mãos e pude sentir o pesar do olhar daquele intruso. Foi neste momento que soube que certos objetos contém indubitável energia, não dissipável pelo tempo.

            E o Tempo, senhor maior da vida, se espreitava entre minhas estantes, rindo de minha confusão. Coloquei o objeto na gaveta, trancando-a com uma chave prateada. E esta foi a primeira lembrança absorvida por mim e por aquela sala.

            Tristeza e alívio.