tênis na janela;
Ainda lembro o momento que te prometi ser forte enquanto você estivesse fora. Acho que tremi um pouco a voz como quem duvida do que diz. As memórias se tornam coisa pouca quando se tem cheiro, sabor e toque. O passado se torna escasso quando se tem vida. Mas ainda sim, aqui estou eu, tentando criar e fortificar um castelo ou alguma forma de defesa. Será que ao menos quero me defender?
Este castelo (que você me fez prometer que não seria de areia) é feito de pedras cinzas e nostálgicas, que escondem o colorido da saudade de dentro. É cheio de portas e janelas – bem frágil e sujeito a invasões. Eu sei, eu sei que prometi. Mas este castelo também é bem perto do mar. E a força do mar é mais forte que tudo. E eu ainda me lembro da sua imagem caminhando na areia de forma desesperada, o sal escorrendo do seu rosto, a vida saindo de você até mim, de mim até você. E essa lembrança é o bastante para que as ondas invadam meu castelo tão frágil. E começo a ser inundado por memórias, lembranças. E a falta, a ausência, impedem a entrada do oxigênio.
Sei que prometi ser forte. Mas ser forte é agüentar ser fraco, não é? Ser forte é sim, fraquejar e não cair. Afogar e respirar novamente. Então, por favor, volte logo. Retire as águas do meu castelo. Você também prometeu voltar logo…
Este é meu jeito de sentir falta. Começo bem, depois vou me perdendo aos poucos em algum pensamento bom, mas logo volto. E depois, mais uma vez.
Sua voz ajuda.
Mas será que posso te pedir para deixar um tênis na janela? Assim eu sinto menos falta. De vez em quando dou uma olhada pro jeito que ele brilha no Sol, aí me lembro da praia. Uma vez ou outra chego perto dele só por chegar. De tempos em tempos mudo ele de lugar, mas sempre na janela, com cuidado para que não caia.
E acho que a sala fica mais bonita com ele ali também.
Temos um acordo?