Sombra e noite
Talvez tenha sido demasiadamente significativo te dizer que “sozinho seria triste”. Como posso entregar tanto de mim sem nem desejar? Parece que vou me deixando aos poucos pelos cantos, pelas palavras, pelas pessoas. E será que elas entendem? Será que recolhem meus pedaços, guardam com carinho? Será que brincam despretensiosas?
A insegurança vem sem dizer “voltei”, mesmo chegando mudada. E eu, que fingia não sentir falta, encontro abrigo nos meus receios. Encontro segurança em mim, enquanto construo castelos e raciocínios que se autodestroem. A falsa segurança da solidão, do acomodar-se.
E para fora tenho medo de me tornar só receios. Enxergo pessoas que sentem o mesmo e lidam de maneiras bem distintas. Vejo o sorriso e a exaltação dos que vêem no ‘exagerado’ a saída para frustrações internas. Vejo também o silêncio pálido dos que tentam a difícil tarefa do reconhecimento. E tento ficar alheio a estes dois campos, sem que fique também alheio a mim.
Não estava forte nas minhas convicções? Feliz com minhas criações inusitadas, extasiado com tudo inesperado? Acho que até demais. O engraçado é que tudo cansa.
E o importante é que não desisti. Ainda confio na importância de me sentir bem. De pisar e ter orgulho da marca deixada. De ousar e ser lembrado, de ser, de despretensiosamente sorrir. Ainda que o exagero me pegue de surpresa, sou forte para me deixar ausente dos egocentrismos que a noite traz. Dos jogos que as pessoas praticam. Das mentiras que derrubam cadeiras ou dos mal-entendidos que vêm a calhar.
Ainda sinto, na noite e na sombra, que ando diferente. Piso mais forte, ando mais convicto, me desvio mais fácil. E se me faz tão bem enquanto é noite, tenho certeza que estarei ainda melhor no dia.