Quilômetros por hora.

As palavras aparecem como em paz. Entendo a fúria de um texto não pensado, a velocidade de um poema forte. Mas as palavras só me saem do bolso na paz. Na tranquilidade de sentar, pensar, e deixar-ser. Afinal, depois que se descobre como usar as palavras para ganhar argumentos, discutir, convencer e destruir expectativas, ou seja, depois que se aprende a usar palavras, acaba se tornando mais difícil simplesmente deixá-las ser.

E a vida é rápida demais para a construção de frases em parágrafos. A vída é doida demais para a contínua construção de um texto coeso. Então quanto mais vivo, menos escrevo - para o bem e para o mal. Quando vou esbarrando nesses corpos apáticos, quando escuto essas músicas surdas, quando danço estes jogos arrastados, mais tenho o que escrever. E menos consigo, e menos quero.

Escrever é dar importância. É por no eterno o que não conseguiu ser passageiro. É expressar muito mais do que se pretende. E o problema é que às vezes não queremos dar importância a tudo. Que vontade de olhar para certas coisas com irrelevância! Mas, por serem palavras, estão vivas.

Talvez tenha faltado a oportunidade. Talvez tenha faltado relevância. Talvez tenha faltado tempo. Talvez tenha faltado comunicação. Talvez tenha faltado simplicidade.

Mas se aprende, nem que doa. E, como gosto de dizer, “afinal de contas, temos que ficar bem”. E que estar bem seja, sempre, o que não se pode mudar. Não é pra isso também que escrevo? 

Neste meu processo de paz, tão calmo e não pensado, as palavras parecem surgir mais que vivas. Estão alheias a mim e eu, a elas. Por isso o estranhamento ao ler um texto depois de pouco tempo, inclusive. Porque me deixando ser acabo por conhecer-me. E, me conhecendo, me sinto mais preparado.

Para encarar tudo com sorriso, com paciência e com humildade. Para que tenha harmonia no meu dia-a-dia e prazer grande no inesperado. Para lidar.

E para seguir sendo.