i’ve never found a door;

Ainda que não acredite, agora me pergunto se deveria ter me focado no branco. Não faz muito tempo desde que me certifiquei de que darei primazia à paz. Seja na vida, aqui dentro ou lá fora. 

Escrever, inventar, criar.

Entre cidades que não conheço e antigos receios

A beleza escondida da mulher de negro, sentada elegante naquela escada antiga, prendeu meus olhos nesta tela morta. Havia vida e havia força, desafiando minhas preconcepções. E prefiro ver, no desafio de estar errado, um aprendizado, e não uma derrota ou vergonha. Aprendo a sorrir quando sou surpreendido, a admirar quando minhas ideias cambaleiam.

Mas, no final, ela ainda está presa nessa minha tela gelada. A vontade de vivenciar quase entra em choque com o meu medo, grande e velho companheiro, de conhecer o novo. Não importa se justificado, sempre acho que esse tal ‘novo’ vai me dar uma pancada na cara. E ficaria difícil dizer quem dói mais: o golpe ou a minha escolha. Mas escolher é inventar. E inventar nos torna felizes (e vivos!).

E o tempo passa junto às minhas indagações e descobertas, nesse fluido lindo que é a vida. As ocasiões me dizem ‘oi’, as vitórias erguem seus copos, e a possibilidade (que é mãe de toda ação) é bem-vinda em meu trono.

Gosto de acreditar que eventualmente voltarei a esbarrar com esta mesma mulher envolta de negro. E, agora livre do erro de generalização, a reconheceria. O vermelho de suas curvas. O raro de seu olhar. Sentaria entre ela e meus receios naquela mesma escada. E sorriria.

Encheria meus olhos de vida, de paixão e reconhecimento. O sentimento da felicidade plena tomaria conta de cada pontinha do meu ser. Que se transformaria. E, afinal, prefiro ser um eterno otimista: acreditar na beleza e na felicidade, ver no tempo uma dádiva, fazer das lágrimas o aprendizado e a força. Viver, inventar, ser.

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Prólogo;

            Ainda me lembro da vela que se apagou quando ele entrou pela primeira vez no cômodo mal iluminado. O lápis que, assumindo vida, dançava em minha mão, subitamente parou sob o papel. Com a vista baixa, primeiramente vi seus sapatos de couro, empoeirados e cansados, como quem precisa andar sem não mais conseguir. Todo seu semblante era como aquele sapato: cansado, marcado pelo tempo, numa inútil e incansável tentativa de se agarrar a uma época enevoada.

            Antes que pudesse dar continuidade a minha habitual análise (eu, tão ingênuo, acreditava poder ler pessoas como se fossem livros!), o homem retirou um pacote do bolso de seu paletó marrom. Não me espantei ao ver que o pacote estava amassado. Com cuidado, as mãos longas e enrugadas retiraram um objeto reluzente do pacote. O brilho do ouro, combinado ao amarelo das velas, deu ao visitante um espectro mágico, indecifrável. Em seu rosto, uma mistura de tristeza e alívio.

            Não me recordo das minhas exatas palavras, já que a lembrança paira em minha mente como um filme mudo. Talvez a força e o impacto das imagens, dos movimentos e das cores tenham obliterado qualquer outro tipo de recordação. Provavelmente cheirava a livros, cera e perfume, mas isso vem da intuição, e não da memória. O que vem da memória foi a maneira extremamente delicada com a qual depositou sobre minha mesinha de madeira aquele objeto reluzente. Minha camisa, agora manchada pelo amarelo-ouro, escondia o nervosismo marcante em minhas mãos trêmulas.

            _ Não quero mais recordar. Disseram-me que este é o local ideal – disse o homem, movimentando sua barba rala e prateada.

            Decifrei novamente o alívio. E, da sua dificuldade em dizer cada uma das palavras, a tristeza que acompanha à velhice. Tratava-se de um cordão dourado, no qual um anel de mesma cor – mas maior intensidade - se agarrava.

            Mas quem haveria dito o quê? Quem seria aquele homem? Foram as perguntas que pisotearam minha mente e não encontraram refúgio em meus lábios. Eu estava quieto como meus livros.

            A porta se fecha e outra vela se apaga, me deixando na mais completa escuridão. Agora a sós com aquele objeto enigmático, pude ver que ele ainda brilhava, como se tivesse absorvido a trêmula luz de minhas velas. Coloquei-o em minhas mãos e pude sentir o pesar do olhar daquele intruso. Foi neste momento que soube que certos objetos contém indubitável energia, não dissipável pelo tempo.

            E o Tempo, senhor maior da vida, se espreitava entre minhas estantes, rindo de minha confusão. Coloquei o objeto na gaveta, trancando-a com uma chave prateada. E esta foi a primeira lembrança absorvida por mim e por aquela sala.

            Tristeza e alívio.

aunque tu no lo sepas

(…)

También hemos hablado 
en la cama, sin prisa, muchas tardes 
esta cama de amor que no conoces, 
la misma que se queda 
fría cuanto te marchas. 

Aunque tú no lo sepas te inventaba conmigo, 
hicimos mil proyectos, paseamos 
por todas las ciudades que te gustan, 
recordamos canciones, elegimos renuncias, 
aprendiendo los dos a convivir 
entre la realidad y el pensamiento. 

  • Luis García Montero.